30 agosto 2009

Os "Dois Brasils" revisados...

Em 2006, o Prof. José de Sousa Martins (*) deu uma entrevista ao jornal O 11 de Agosto, da qual extracto aqui as seguintes passagens:
"O Brasil tem um problema estrutural não resolvido, que é o da exclusão política da imensa maioria da população. Mesmo com a progressiva e lenta ampliação do número dos que podiam ser eleitores, a partir da proclamação da República, a inclusão eleitoral não se materializou como inclusão política. Foi, por isso, inclusão perversa. Nosso eleitorado é no geral alienado, vota em pessoas e, sobretudo, em estereótipos. Raramente vota em idéias e partidos, até porque praticamente não temos verdadeiros partidos políticos. Nossos partidos são, no geral, associações de interesses extra-políticos, poucas vezes articulados em torno de um núcleo de idéias relativas tanto à administração do Estado quanto ao presente e ao futuro da sociedade.
(...) Os dois Brasis já não são apenas o Brasil desenvolvido e o Brasil subdesenvolvido, de que tratou Jacques Lambert, em Os Dois Brasis, o Brasil rico e o Brasil pobre, mas o Brasil legal e o Brasil clandestino, o Brasil da lei e o Brasil alternativo que não está reconhecido nas leis. Este segundo Brasil cresce em todos os planos: na já rica e poderosa economia clandestina, no Estado paralelo e oculto que aparece mal disfarçado sob o rótulo de corrupção e na justiça paralela (que vai dos linchamentos aos tribunais de pequenas causas das organizações criminosas). A relação entre esses dois Brasis é real e organizada e se consolida através das figuras que transitam, na economia e na política, entre os dois. Sem isso, estaríamos, provavelmente, mergulhados numa guerra civil – se é que já não estamos, pois tudo indica que o Brasil clandestino declarou guerra ao Brasil legal, que só não reagiu, ainda, por falta de munição, a da consciência crítica e da competência política."
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Fonte: Carlos Serra (Moçambique)
(*) José de Souza Martins, Professor Emérito (2008) e Professor Titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) foi professor titular da Cátedra Simón Bolivar da Universidade de Cambridge, Inglaterra, (1993/1994) e membro de Trinity Hall. Foi professor visitante da Universidade da Flórida (EUA) e da Universidade de Lisboa. (Wikipedia)
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Chamada Geral: Muda Brasil!

Escolhido como primeiro tópico desse blog, o discurso do Presidente da Costa Rica na abertura na Cúpula das Américas foí extraordinário ao demonstrar o quanto a América Latina é a única culpada pelo seu atraso, corrupção e letargia para sanar seus problemas. Parece condenada a assistir ao sucesso global sem participar integralmente dele. Enquanto o mundo caminha para aprimorar sua responsabilidade social, ética nos negócios, integridade nas relações e nas instituições políticas, a América Latina, em geral, e o Brasil em particular, correm na contramão destes fundamentos essenciais para a civilidade e sobrevivência moral de uma nação.
Com raras exceções, as instituições brasileiras estão falidas. Na verdade, o BRASIL precisa ser RE-INVENTADO como NAÇÃO. Percebe-se na nossa língua portuguesa, que já se distanciou muito do vernáculo de Portugal; Nota-se até que não mais conservamos a menor semelhança e afinidade com os descobridores. Mas isso nao vai ser tarefa fácil, nem acontecerá na nossa geração. Talvez, nossos filhos e netos cheguem a conhecer uma nova "alvorada", se agirmos agora. Será um processo longo, árduo, sofrido, talvez violento, e que precisará de continuidade e monitoramento permanentes.
O que mais me espanta é ver o brilho do Brasil nos fundamentos econômicos, se superando na prática do livre comércio e expandindo suas asas mundo afora, e ver tanto caos social e político no cenário doméstico. Nos meus tempos acadêmicos, eu tinha que conhecer e analisar muito bem os “dois brasis” já existentes, e hoje, há muitos outros brasis que continuam ignorados ou bem negligenciados pela política brasileira: a economia formal x economia informal (ilegal), o estado de direito x o governo paralelo do tráfico de drogas, só para citar alguns. Essa reconstrução, certamente, terá que ser feita POR PARTES. E esta “semente” nós podemos plantar!
Eu não quero nem ser pretensiosa nem irrealista, portanto, minha sugestão é o total PRAGMATISMO. Nada de re-inventar a roda, de “discutir o sexo dos anjos”, de mudar sistemas políticos ou modelos econômicos. Temos que APERFEIÇOAR o que temos. Não são ruins, muito pelo contrário. Se os nossos sistemas não são os melhores para o nosso povo, só uma sociedade desenvolvida terá condições de avaliar e decidir. A nossa Democracia, Presidencialismo e Justiça só não funcionam porque não temos a “ferramenta” certa para isso, que se chama EDUCAÇÃO. É ela que ensina um povo a conhecer seus direitos e a praticar a cidadania, a monitorar seus governantes e exigir que cumpram suas obrigações com o bem social, assumidas com o país que os elegeu. E sem ela, a corrupção e impunidade correm soltas, a violência, a desordem, a falta de civilidade e patriotismo. Tudo vem a reboque da falta de uma sistema educacional eficiente. É a maneira com que os políticos no Brasil tem mantido os brasileiros manobráveis como reféns.
A partir de um grupo de pessoas muito engajadas nas discussão dentro do network profissional do Linkein, percebi que tínhamos que aproveitar aquela fabuloso conteúdo intelectual e nos UNIR a TODOS os movimentos já existentes nesse sentido no Brasil. São, de fato, admiráveis, e muitos deles já focados num determinado problema ou assunto. E o B.I.G pretende aglutinar a massa crítica que estava ausente, a dos brasileiros que estão expatriados e saudosos, com todas estas forças existentes. Estamos plantando essa “sementinha”. Mas não podemos continuar o plantio sozinhos...
Leiam nosso código de ética e objetivos, achem o assunto com que sintam mais sensibilizados e se engajem. Obrigada pela participação. Um abraço e o meu apreço,
- Tess -
Maria Teresa Carneiro
New York - Rio de Janeiro
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25 agosto 2009

"Algo Hicimos Mal"

Palavras do Presidente Oscar Arias Sanchez da Costa Rica na Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, 18 de abril de 2009.

Oscar Arias já foi Presidente da Costa Rica (o país mais avançado da América Central), já foi Premio Nobel da Paz (por ter intercedido e negociado os conflitos entre a Nicarágua e El Salvador), já foi Presidente da OEA e foi eleito, uma vez mais, Presidente da Costa Rica para o período 2006-2010. Na última Cúpula das Américas, ele proferiu o discurso abaixo para todos os Presidentes Latino-Americanos.
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"ALGO HICIMOS MAL"

"Tenho a impressão de que cada vez que os países caribenhos e latinoamericanos se reúnem com o presidente dos Estados Unidos da América, é para pedir-lhe coisas ou para reclamar coisas. Quase sempre, é para culpar os Estados Unidos de nossos males passados, presentes e futuros. Não creio que isso seja de todo justo.

Não podemos esquecer que a América Latina teve universidades antes de que os Estados Unidos criassem Harvard e William & Mary, que são as primeiras universidades desse país. Não podemos esquecer que nesse continente, como no mundo inteiro, pelo menos até 1750 todos os americanos eram mais ou menos iguais: todos eram pobres.
Ao aparecer a Revolução Industrial na Inglaterra, outros países sobem nesse vagão: Alemanha, França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e aqui a Revolução Industrial passou pela América Latina como um cometa, e não nos demos conta. Certamente perdemos a oportunidade.

Há também uma diferença muito grande. Lendo a história da América Latina, comparada com a história dos Estados Unidos, compreende-se que a América Latina não teve um John Winthrop espanhol, nem português, que viesse com a Bíblia em sua mão disposto a construir uma cidade sobre uma colina, uma cidade que brilhasse, como foi a pretensão dos peregrinos que chegaram aos Estados Unidos.

Faz 50 anos, o México era mais rico que Portugal. Em 1950, um país como o Brasil tinha uma renda per capita mais elevada que a da Coréia do Sul. Faz 60 anos, Honduras tinha mais riqueza per capita que Cingapura, e hoje Cingapura em questão de 35 a 40 anos é um país com $40.000 de renda anual por habitante. Bem, algo nós fizemos mal, os latino-americanos.
Que fizemos errado? Nem posso enumerar todas as coisas que fizemos mal.
Para começar, temos uma escolaridade de 7 anos. Essa é a escolaridade média da América Latina e não é o caso da maioria dos países asiáticos. Certamente não é o caso de países como Estados Unidos e Canadá, com a melhor educação do mundo, similar a dos europeus. De cada 10 estudantes que ingressam no nível secundário na América Latina, em alguns países, só um termina esse nível secundário. Há países que têm uma mortalidade infantil de 50 crianças por cada mil, quando a média nos países asiáticos mais avançados é de 8, 9 ou 10.

Nós temos países onde a carga tributária é de 12% do produto interno bruto e não é responsabilidade de ninguém, exceto nossa, que não cobremos dinheiro das pessoas mais ricas dos nossos países. Ninguém tem a culpa disso, a não ser nós mesmos.

Em 1950, cada cidadão norte-americano era quatro vezes mais rico que um cidadão latino-americano. Hoje em dia, um cidadão norte-americano é 10, 15 ou 20 vezes mais rico que um latino-americano. Isso não é culpa dos Estados Unidos, é culpa nossa.

No meu pronunciamento desta manhã, me referi a um fato que para mim é grotesco, e que somente demonstra que o sistema de valores do século XX, que parece ser o que estamos pondo em prática também no século XXI, é um sistema de valores equivocado.
Porque não pode ser que o mundo rico dedique 100.000 milhões de dólares para aliviar a pobreza dos 80% da população do mundo "num planeta que tem 2.500 milhões de seres humanos com uma renda de $2 por dia" e que gaste 13 vezes mais ($1.300.000.000.000) em armas e soldados. Como disse esta manhã, não pode ser que a América Latina gaste $50.000 milhões em armas e soldados.

Eu me pergunto: quem é o nosso inimigo? Nosso inimigo, presidente Correa, desta desigualdade que o Sr. aponta com muita razão, é a falta de educação; é o analfabetismo; é que não gastamos na saúde de nosso povo; que não criamos a infraestrutura necessária, os caminhos, as estradas, os portos, os aeroportos; que não estamos dedicando os recursos necessários para deter a degradação do meio ambiente; é a desigualdade que temos que nos envergonhar realmente; é produto, entre muitas outras coisas, certamente, de que não estamos educando nossos filhos e nossas filhas.
Vá alguém a uma universidade latino-americana e parece no entanto que estamos nos sessenta, setenta ou oitenta. Parece que nos esquecemos de que em 9 de novembro de 1989 aconteceu algo de muito importante, ao cair o Muro de Berlim, e que o mundo mudou. Temos que aceitar que este é um mundo diferente, e nisso francamente penso que os acadêmicos, que toda gente pensante, que todos os economistas, que todos os historiadores, quase concordam que o século XXI é um século dos asiáticos não dos latino-americanos. E eu,lamentavelmente, concordo com eles.

Porque enquanto nós continuamos discutindo sobre ideologias, continuamos discutindo sobre todos os "ismos" (qual é o melhor? capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialcristianismo...) os asiáticos encontraram um "ismo" muito realista para o século XXI e o final do século XX, que é o *pragmatismo*.

Para só citar um exemplo, recordemos que quando Deng Xiaoping visitou Cingapura e a Coréia do Sul, depois de ter-se dado conta de que seus próprios vizinhos estavam enriquecendo de uma maneira muito acelerada, regressou a Pequim e disse aos velhos camaradas maoístas que o haviam acompanhado na Grande Marcha: "Bem, a verdade, queridos camaradas, é que a mim não importa se o gato é branco ou negro, só o que me interessa é que cace ratos". E se Mao estivesse vivo, teria morrido de novo quando disse que "a verdade é que enriquecer é glorioso". E enquanto os chineses fazem isso, e desde 1979 até hoje crescem a 11%, 12% ou 13%, e tiraram 300 milhões de habitantes da pobreza, nós continuamos discutindo sobre ideologias que devíamos ter enterrado há muito tempo atrás.

A boa notícia é que isto Deng Xiaoping o conseguiu quando tinha 74 anos. Olhando em volta, queridos presidentes, não vejo ninguém que esteja perto dos 74 anos. Por isso só lhes peço que não esperemos completá-los para fazer as mudanças que temos que fazer.
Muchas gracias."
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